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Paróquia dos Álamos, Funchal

Hoje: eis o Cordeiro. Esta semana: ecumenismo. De hoje a 8: abrir entendimento e Escrituras com o papa. Fotos: coroas de Advento

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Coroas de Advento premiadas:

Fátima Carmelita ->

2019 coroa de Advento Fátima Carmelitae Helena Paula ->

2019 coroa de Advento Helena Pereira 1

CARTA APOSTÓLICA

SOB FORMA

DE

MOTU PROPRIO

APERUIT ILLIS

DO

SANTO PADRE

FRANCISCO

PELA QUAL

SE INSTITUI

O

DOMINGO

DA

PALA­VRA DE DEUS

 

 

  1. «ABRIU-LHES o entendimento para compreen­derem as Escrituras» (Lc 24, 45). Trata-se de um dos últi­mos gestos realizados pelo Senhor ressuscitado, antes da sua Ascensão. Encontrando-se os discípulos reunidos, Je­sus aparece-lhes, parte o pão com eles e abre-lhes o enten­dimento à compreensão das sagradas Escrituras. Revela à­queles homens, temerosos e desiludidos, o sentido do mis­tério pascal, ou seja, que Ele, segundo os desígnios eternos do Pai, devia sofrer a paixão e ressuscitar dos mor­tos para oferecer a conversão e o perdão dos pecados (cf. Lc 24, 26.46-47); e promete o Espírito Santo que lhes dará a força para serem testemunhas deste mistério de salvação (cf. Lc 24, 49).

A relação entre o Ressuscitado, a comunidade dos crentes e a Sagrada Escritura é extremamente vital para a nossa identidade. Sem o Senhor que nos introduz na Sa­grada Escritura, é impossível compreendê-la em profun­didade; mas é verdade também o contrário, ou seja, que, sem a Sagrada Escritura, permanecem indecifráveis os a­contecimentos da missão de Jesus e da sua Igreja no mun­do. Como justamente escreve S. Jerónimo, «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» (Commentarii in Isa­iam, Prologus: PL 24, 17). 2. No termo do Jubileu Extraordinário da Misericór­dia, pedi que se pensasse num «domingo dedicado inteira­mente à Palavra de Deus, para compreender a riqueza i­nesgotável que provém daquele diálogo constante de Deus com o seu povo» (Carta ap. Misericordia et misera, 7). A dedicação dum domingo do Ano Litúrgico particularmente à Palavra de Deus permite, antes de mais nada, fazer a I­greja reviver o gesto do Ressuscitado que abre, também pa­ra nós, o tesouro da sua Palavra, para podermos ser no mundo arautos desta riqueza inexaurível. A propósito, vol­tam à mente os ensinamentos de Santo Efrém: «Quem po­derá compreender, Senhor, toda a riqueza duma só das tu­as palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A tua pala­vra apresenta muitos aspetos diversos, como diversas são as perspetivas daqueles que a estudam. O Senhor pintou a su­a palavra com muitas belezas, para que aqueles que a pers­crutam possam contemplar aquilo que preferirem. Escon­deu na sua palavra todos os tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita» (Comentários sobre o Diatessaron, 1, 18).

Assim, com esta Carta, pretendo dar resposta a mui­tos pedidos que me chegaram da parte do povo de Deus no sentido de se poder celebrar o Domingo da Palavra de Deus em toda a Igreja e com unidade de intenções. Já se tornou uma prática comum viver certos momentos em que a comunidade cristã se concentra sobre o grande valor que a Palavra de Deus ocupa na sua vida diária. Nas diversas I­grejas locais, há uma riqueza de iniciativas que torna a Sa­grada Escritura cada vez mais acessível aos crentes para os fazerem sentir-se agradecidos por tão grande dom, com­prometidos a vivê-lo no dia a dia e responsáveis por teste­munhá-lo com coerência.

O Concílio Ecuménico Vaticano II deu um grande impulso à redescoberta da Palavra de Deus, com a consti­tuição dogmática Dei Verbum. Das suas páginas que mere­cem ser sempre meditadas e vividas, emergem de forma clara a natureza da Sagrada Escritura, a sua transmissão de geração em geração (cap. II), a sua inspiração divina (cap. III) que abraça o Antigo e o Novo Testamento (caps. IV e V) e a sua importância para a vida da Igreja (cap. VI). Para incrementar esta doutrina, Bento XVI convocou em 2008 uma Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre o tema «A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja» e, depois dela, publicou a exortação apostólica Verbum Domini, que constitui um ensinamento imprescindível para as nossas co­munidades[1]. Neste Documento, aprofunda-se de modo particular o caráter performativo da Palavra de Deus, so­bretudo quando, na ação litúrgica, emerge o seu caráter propriamente sacramental[2].

Por isso, é bom que não venha jamais a faltar na vida do nosso povo esta relação decisiva com a Palavra viva, que o Senhor nunca Se cansa de dirigir à sua Esposa, para que esta possa crescer no amor e no testemunho da fé.

  1. Portanto estabeleço que o III Domingo do Tem­po Comum seja dedicado à celebração, reflexão e divulga­ção da Palavra de Deus. Este Domingo da Palavra de Deus colocar-se-á, assim, num momento propício daquele perío­do do ano em que somos convidados a reforçar os laços com os judeus e a rezar pela unidade dos cristãos. Não se trata de mera coincidência temporal: a celebração do Do­mingo da Palavra de Deus expressa uma valência ecumé­nica, porque a Sagrada Escritura indica, a quantos se colo­cam à sua escuta, o caminho a seguir para se chegar a uma unidade autêntica e sólida.

As comunidades encontrarão a forma de viver este Do­mingo como um dia solene. Entretanto será impor­tante que, na celebração eucarística, se possa entronizar o texto sa­grado, de modo a tornar evidente aos olhos da assem­bleia o valor normativo que possui a Palavra de Deus. Nes­te Domingo, em particular, será útil colocar em evi­dência a sua proclamação e adaptar a homilia para se pôr em desta­que o serviço que se presta à Palavra do Senhor. Neste Do­mingo, os Bispos poderão celebrar o rito do Lei­torado ou confiar um ministério semelhante, a fim de chamar a aten­ção para a importância da proclamação da Palavra de Deus na liturgia. De facto, é fundamental que se faça todo o es­forço possível no sentido de preparar alguns fiéis para se­rem verdadeiros anunciadores da Palavra com uma prepa­ração adequada, tal como já acontece habitual­mente com os acólitos ou os ministros extraordinários da comunhão. Da mesma maneira, os párocos poderão encontrar formas de entregar a Bíblia, ou um dos seus livros, a toda a assem­bleia, de modo a fazer emergir a importância de continuar na vida diária a leitura, o apro­fundamento e a oração com a Sagrada Escritura, com par­ticular referência à lectio divi­na.

  1. O regresso do povo de Israel à pátria, depois do exílio de Babilónia, foi assinalado de modo significativo pe­la leitura do livro da Lei. A Bíblia dá-nos uma como­vente descrição daquele momento, no livro de Neemias. O povo está reunido em Jerusalém, na praça da Porta das Águas, a escutar a Lei. Aquele povo dispersara-se com a deportação, mas agora encontra-se reunido à volta da Sagrada Escritura «como um só homem» (Ne 8, 1). Durante a leitura do Li­vro sagrado, o povo «escutava com atenção» (Ne 8, 3), cien­te de encontrar naquela palavra o sentido para os aconte­cimentos vividos. Em reação à pro­clamação daquelas pa­lavras, brotou a comoção e o pranto. Os levitas «liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura. O governador Neemias, Esdras, sacerdote e escriba, e os levi­tas que instruíam o povo disse­ram a toda a multidão: “Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus; não vos en­tristeçais nem choreis”. Pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. (…) “Não vos entristeçais, porque a ale­gria do Senhor é a vossa força”» (Ne 8, 8-9.10).

Estas palavras encerram uma grande lição. A Bíblia não pode ser património só de alguns e, menos ainda, uma coletânea de livros para poucos privilegiados. Pertence, an­tes de mais nada, ao povo convocado para a escutar e se re­conhecer nesta Palavra. Muitas vezes, surgem tendências que procuram monopolizar o texto sagrado, desterrando-o para alguns círculos ou grupos escolhidos. Não pode ser assim. A Bíblia é o livro do povo do Senhor que, escutan­do-a, passa da dispersão e divisão à unidade. A Palavra de Deus une os crentes e faz deles um só povo.

  1. Nesta unidade gerada pela escuta, primariamente os Pastores têm a grande responsabilidade de explicar e fa­zer compreender a todos a Sagrada Escritura. Uma vez que é o livro do povo, todos os que têm a vocação de ser minis­tros da Palavra devem sentir fortemente a exigência de a tornar acessível à sua comunidade.

De modo particular, a homilia desempenha uma função totalmente peculiar, porque possui «um caráter qua­se sacramental» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gau­dium, 142). Introduzir profundamente na Palavra de Deus, com uma linguagem simples e adaptada a quem escuta, requer do sacerdote que faça descobrir também «a beleza das ima­gens que o Senhor utilizava para incentivar a prática do bem» (Ibid., 142). Trata-se duma oportunidade pastoral a não perder!

Com efeito, para muitos dos nossos fiéis, esta é a ú­nica ocasião que têm para captar a beleza da Palavra de Deus e a ver referida à sua vida diária. Por isso, é preciso dedicar tempo conveniente à preparação da homilia. Não se pode improvisar o comentário às leituras sagradas. So­bretudo a nós, prègadores, pede-se o esforço de não nos a­longarmos desmesuradamente com homilias enfatuadas ou sobre assuntos não atinentes. Se nos detivermos a medi­tar e rezar sobre o texto sagrado, então seremos capazes de fa­lar com o coração para chegar ao coração das pessoas que escutam, de modo a expressar o essencial que é rece­bido e produz fruto. Nunca nos cansemos de dedicar tempo e o­ração à Sagrada Escritura, para que seja acolhida, «não co­mo palavra de homens, mas como ela é realmente, palavra de Deus» (1 Ts 2, 13).

É bom também que os catequistas, atendendo ao mi­nistério que desempenham de ajudar a crescer na fé, sin­tam a urgência de se renovar através da familiaridade e es­tudo das sagradas Escrituras, que lhes consintam promo­ver um verdadeiro diálogo entre aqueles que os escutam e a Palavra de Deus.

  1. Antes de ir ter com os discípulos, que estavam fe­chados em casa, e de lhes abrir a mente ao entendimento da Sagrada Escritura (cf. Lc 24, 44-45), o Ressuscitado apa­rece a dois deles no caminho que vai de Jerusalém a Ema­ús (cf. Lc 24, 13-35). Na sua narração, o evangelista Lucas faz notar que se verificou no próprio dia da Ressur­reição, ou seja, no domingo. Aqueles dois discípulos con­versavam sobre os recentes acontecimentos da paixão e morte de Je­sus. O seu caminho é marcado pela tristeza e a desilusão, devido ao trágico fim de Jesus. Esperaram n’Ele como Messias libertador, e agora embatem no escândalo do Cru­cificado. Discretamente, o Ressuscitado em pessoa aproxi­ma-Se e caminha com os discípulos, mas eles não O reco­nhecem (cf. Lc 24, 16). Ao longo do caminho, o Senhor interpela-os, dando-Se conta de que não com­preenderam o sentido da sua paixão e morte; chama-lhes «homens sem inteligência e lentos de espírito» (Lc 24, 25) e, «começando por Moisés e seguindo por todos os Profe­tas, explicou­‑lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respei­to» (Lc 24, 27). Cristo é o primeiro exegeta! Não só as Es­crituras antigas tinham predito aquilo que Jesus havia de re­alizar, mas Ele próprio quis ser fiel àquela Palavra para tor­nar evidente a única história da salvação, que n’Ele encon­tra a sua realização.
  2. Por isso a Bíblia, enquanto Escritura Sagrada, fala de Cristo e anuncia-O como Aquele que deve passar pelo sofrimento para entrar na glória (cf. Lc 24,26). E d’Ele fa­lam não só uma parte, mas todas as Escrituras. Sem estas, são indecifráveis a sua morte e ressurreição. Por isso, uma das mais antigas confissões de fé sublinha que Cristo «mor­reu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepul­tado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas»(1 Cor 15, 3-5). Uma vez que as Escritu­ras falam de Cristo, consentem acreditar que a sua morte e ressurreição não pertencem à mitologia mas à história, e encontram-se no centro da fé dos seus discípulos.

É profundo o vínculo entre a Sagrada Escritura e a fé dos crentes. Sabendo que a fé vem da escuta, e a escuta centra-se na Palavra de Cristo (cf. Rm 10, 17), daí se vê a urgência e a importância que os crentes devem dar à escuta da Palavra do Senhor, tanto na ação litúrgica, como na ora­ção e reflexão pessoais.

  1. A «viagem» do Ressuscitado com os discípulos de Emaús conclui com a ceia. O misterioso Viandante acede ao pedido insistente que os dois Lhe dirigem: «Fica con­nosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso» (Lc 24, 29). Sentam-se à mesa; Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e dá-o a eles. Naquele momento, abrem­‑se-lhes os olhos e reconhecem-No (cf. Lc 24, 31).

A partir desta cena, compreendemos como seja indi­visível a relação entre a Sagrada Escritura e a Eucaristia. O Concílio Vaticano II ensina: «A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Se­nhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Litur­gia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo» (Dei Ver­bum, 21).

A frequência assídua da Sagrada Escritura e a cele­bração da Eucaristia tornam possível o reconhecimento en­tre pessoas que são parte umas das outras. Como cris­tãos, somos um só povo que caminha na história, fortale­cido pe­la presença no meio de nós do Senhor que nos fala e ali­menta. O dia dedicado à Bíblia pretende ser, não «uma vez no ano», mas uma vez por todo o ano, porque temos ur­gente necessidade de nos tornar familiares e ínti­mos da Sa­grada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos crentes. Para tal, preci­samos de entrar em confidência assídua com a Sagrada Es­critura; caso contrário, o coração fica frio e os olhos perma­necem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis formas de cegueira.

Sagrada Escritura e Sacramentos são inseparáveis en­tre si. Quando os Sacramentos são introduzidos e ilumi­na­dos pela Palavra, manifestam-se mais claramente como a meta dum caminho onde o próprio Cristo abre a mente e o coração ao reconhecimento da sua ação salvífica. Neste contexto, é preciso não esquecer um ensinamento que vem do livro do Apocalipse; lá se ensina que o Senhor está à porta e bate. Se uma pessoa ouvir a sua voz e Lhe abrir a porta, Ele entra para cear junto com ela (cf. 3, 20). Cristo Jesus bate à nossa porta através da Sagrada Escritura; se ouvirmos e abrirmos a porta da mente e do coração, então Ele entra na nossa vida e permanece connosco.

  1. Na II Carta a Timóteo, que de certa forma consti­tui o testamento espiritual de Paulo, este recomenda ao seu fiel colaborador que frequente assiduamente a Sagrada Es­critura. O Apóstolo está convencido de que «toda a Escri­tura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (3, 16). Esta recomen­dação de Paulo a Timóteo constitui uma base sobre a qual a consti­tuição conciliar Dei Verbum aborda o grande tema da ins­piração da Sagrada Escritura, base essa donde emer­gem particularmente a finalidade salvífica, a dimensão espi­ritual e o princípio da encarnação para a Sagrada Escritura.

Apelando-se, antes de mais nada, à recomendação de Paulo a Timóteo, a Dei Verbum sublinha que «os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse con­signada nas sagradas Escrituras» (n. 11). Porque estas ins­truem tendo em vista a salvação pela fé em Cristo (cf. 2 Tm 3, 15), as verdades nelas contidas servem para a nossa salvação. A Bíblia não é uma coletânea de livros de história nem de crónicas, mas está orientada completamente para a salvação integral da pessoa. A inegável radicação histórica dos livros contidos no texto sagrado não deve fazer esque­cer esta finalidade primordial: a nossa salvação. Tudo está orientado para esta finalidade inscrita na própria natureza da Bíblia, composta como história de salvação na qual Deus fala e age para ir ao encontro de todos os homens e salvá-los do mal e da morte.

Para alcançar esta finalidade salvífica, a Sagrada Es­critura, sob a ação do Espírito Santo, transforma em Pala­vra de Deus a palavra dos homens escrita à maneira huma­na (cf. Dei Verbum, 12). O papel do Espírito Santo na Sa­grada Escritura é fundamental. Sem a sua ação, esta­ria sem­pre iminente o risco de ficarmos fechados apenas no texto escrito, facilitando uma interpretação fundamen­talista, da qual é necessário manter-se longe para não trair o caráter inspirado, dinâmico e espiritual que o texto possui. Como recorda o Apóstolo, «a letra mata, enquanto o Espí­rito dá a vida» (2 Cor 3, 6). Por conseguinte, o Espírito Santo trans­forma a Sagrada Escritura em Palavra viva de Deus, vivida e transmitida na fé do seu povo santo.

  1. A ação do Espírito Santo não diz respeito apenas à formação da Sagrada Escritura, mas atua também naque­les que se colocam à escuta da Palavra de Deus. É impor­tante a afirmação dos padres conciliares, segundo a qual a Sagrada Escritura deve ser «lida e interpretada com o mes­mo Espírito com que foi escrita» (Dei Verbum, 12). Com Jesus Cristo, a revelação de Deus alcança a sua reali­zação e plenitude; e, todavia, o Espírito Santo continua a sua ação. De facto, seria redutivo limitar a ação do Espírito Santo a­penas à natureza divinamente inspirada da Sagrada Escri­tura e aos seus diversos autores. Por isso, é necessário ter confiança na ação do Espírito Santo que continua a realizar uma sua peculiar forma de inspiração, quando a Igreja en­sina a Sagrada Escritura, quando o Magistério a interpreta de forma autêntica (cf. ibid., 10) e quando cada crente faz dela a sua norma espiritual. Neste sentido, podemos com­preender as palavras ditas por Jesus aos dis­cípulos, depois que estes Lhe asseveraram ter compreen­dido o significado das suas parábolas: «Todo o doutor da lei instruído acerca do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que ti­ra coisas novas e velhas do seu tesouro» (Mt 13, 52).
  2. Por fim, a Dei Verbum especifica que «as pala­vras de Deus, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como ou­trora o Verbo do eterno Pai Se assemelhou aos homens, tomando a carne da fraqueza humana» (n. 13). Isto equi­va­le a dizer que a encarnação do Verbo de Deus dá forma e sentido à relação entre a Palavra de Deus e a linguagem hu­mana, com as suas condições históricas e culturais. É neste evento que ganha forma a Tradição, também ela Palavra de Deus (cf. ibid., 9). Muitas vezes corre-se o risco de sepa­rar Sagrada Escritura e Tradição, sem compreender que e­las, juntas, constituem a única fonte da Revelação. O cará­ter escrito da primeira, nada tira ao facto de ela ser plena­mente palavra viva; assim como a Tradição viva da Igreja, que no decurso dos séculos a transmite incessante­mente de geração em geração, possui aquele livro sagrado como a «regra suprema da fé» (Ibid., 21). Além disso, antes de se tornar um texto escrito, a Palavra de Deus foi trans­mitida oralmente e mantida viva pela fé dum povo que a reconhe­cia como sua história e princípio de identidade no meio de tantos outros povos. Por isso, a fé bíblica funda-se sobre a Palavra viva, não sobre um livro.
  3. Quando a Sagrada Escritura é lida com o mesmo Espírito com que foi escrita, permanece sempre nova. O Antigo Testamento nunca é velho, uma vez que é parte do Novo, pois tudo é transformado pelo único Espírito que o inspira. O texto sagrado inteiro possui uma função proféti­ca: esta não diz respeito ao futuro, mas ao hoje de quem se alimenta desta Palavra. Afirma-o claramente o próprio Je­sus, no início do seu ministério: «Cumpriu-se hoje esta pas­sagem da Escritura, que acabais de ouvir» (Lc 4, 21). Quem se alimenta dia a dia da Palavra de Deus torna-se, como Jesus, contemporâneo das pessoas que encontra; não se sente tentado a cair em nostalgias estéreis do passado, nem em utopias desencarnadas relativas ao futuro.

A Sagrada Escritura desempenha a sua ação profé­ti­ca, antes de mais nada, em relação a quem a escuta, pro­vo­cando-lhe doçura e amargura. Vêm à mente as palavras do profeta Ezequiel, quando, convidado pelo Senhor a comer o rolo do livro, confessa: «Ele foi, na minha boca, doce co­mo o mel» (3, 3). Também o evangelista João revive, na i­lha de Patmos, a mesma experiência de Eze­quiel de comer o livro, mas acrescenta algo de mais especí­fico: «Na minha boca era doce como o mel; mas, depois de o comer, as mi­nhas entranhas encheram-se de amargura» (Ap 10, 10).

A doçura da Palavra de Deus impele-nos a comu­ni­cá-la a quantos encontramos na nossa vida, expressando a certeza da esperança que ela contém (cf. 1 Ped 3, 15-16). Entretanto a amargura apresenta-se, muitas vezes, no facto de verificar como se torna difícil para nós termos de a viver com coerência, ou de constatar sensivelmente que é rejei­tada, porque não se considera válida para dar sentido à vi­da. Por isso, é necessário que nunca nos abeiremos da Pa­lavra de Deus por mero hábito, mas nos alimentemos dela para descobrir e viver em profundidade a nossa rela­ção com Deus e com os irmãos.

  1. Outra provocação que nos vem da Sagrada Escri­tura tem a ver com a caridade. A Palavra de Deus apela constantemente para o amor misericordioso do Pai, que pede a seus filhos para viverem na caridade. A vida de Je­sus é a expressão plena e perfeita deste amor divino, que nada guarda para si, mas a todos se oferece sem reservas. Na parábola do pobre Lázaro, encontramos uma indicação preciosa. Depois da morte de Lázaro e do rico, este vê o pobre no seio de Abraão e pede para Lázaro ser enviado a casa dos seus irmãos a fim de os advertir sobre a vivência do amor do próximo para evitar que venham sofrer os mesmos tormentos dele. A resposta de Abraão é incisiva: «Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!» (Lc 16, 29). Es­cutar as sagradas Escrituras para praticar a misericórdia: es­te é um grande desafio lançado à nossa vida. A Palavra de Deus é capaz de abrir os nossos olhos, permitindo-nos sair do individualismo que leva à asfixia e à esterilidade en­quanto abre a estrada da partilha e da solidariedade.
  2. Um dos episódios mais significativos desta rela­ção entre Jesus e os discípulos é a Transfiguração. Acom­panhado por Pedro, Tiago e João, Jesus sobe ao monte pa­ra rezar. Os evangelistas lembram como se tornaram res­plandecentes o rosto e as vestes de Jesus, enquanto dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, que perso­nificam respetivamente a Lei e os Profetas, isto é, as sagra­das Escrituras. A reação de Pedro a tal visão transborda de jubilosa maravilha: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Eli­as» (Lc 9, 33). Naquele momento, uma nuvem cobre-os com a sua sombra, e o medo apodera-se dos discípulos.

A Transfiguração faz pensar na Festa dos Taberná­culos, quando Esdras e Neemias liam o texto sagrado ao povo, depois do regresso do exílio. Ao mesmo tempo, an­tecipa a glória de Jesus como preparação para o escân­dalo da paixão; glória divina que é evocada também pela nuvem que envolve os discípulos, símbolo da presença do Senhor. Esta Transfiguração é semelhante à da Sagrada Escritura, que se transcende a si mesma, quando alimenta a vida dos crentes. Como nos recorda a Verbum Domini, «para se re­cuperar a articulação entre os diversos sentidos da Escritu­ra, torna-se decisivo identificar a passagem entre letra e es­pírito. Não se trata duma passagem automática e espontâ­nea; antes, é preciso transcender a letra» (n. 38).

  1. No caminho da receção da Palavra de Deus, a­companha-nos a Mãe do Senhor, reconhecida como bem­‑aventurada por ter acreditado no cumprimento daquilo que Lhe dissera o Senhor (cf. Lc 1, 45). A bem-aventuran­ça de Maria antecede todas as bem-aventuranças pronunci­adas por Jesus para os pobres, os aflitos, os mansos, os pa­cificadores e os que são perseguidos, porque é condi­ção necessária para qualquer outra bem-aventurança. Nenhum pobre é bem-aventurado por ser pobre; mas passa a sê-lo, se, como Maria, acreditar no cumprimento da Palavra de Deus. Lembra-o um grande discípulo e mes­tre da Sagrada Escritura, Santo Agostinho: «Uma pessoa do meio da mul­tidão, cheia de entusiasmo, exclamou: “Bem-aventurado o ventre que Te trouxe”. E Ele: “Mais felizes são os que ou­vem a palavra de Deus e a guardam”. Como que a dizer: também a minha mãe, a quem tu chamas bem-aventurada, é bem-aventurada justamente porque guarda a palavra de Deus, não porque n’Ela o Verbo Se fez carne e habitou en­tre nós, mas porque guarda o próprio Verbo de Deus por meio do Qual foi feita, e que n’Ela Se fez carne» (Sobre o Evangelho de São João, 10, 3).

Possa o domingo dedicado à Palavra fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as sagradas Escrituras, tal como ensinava o autor sagrado já nos tempos antigos: esta palavra «está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares» (Dt 30, 14).

Roma, em São João de Latrão, no dia 30 de setem­bro de 2019, Memória litúrgica de São Jerónimo e início do 1600º aniversário da sua morte.

Francisco

[1] Cf. AAS 102 (2010), 692-787.

[2] «Assim é possível compreender a sacramentalidade da Palavra através da analogia com a presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vi­nho consagrados. Aproximando-nos do altar e participando no banquete eu­carístico, comungamos realmente o corpo e o sangue de Cristo. A pro­cla­mação da Palavra de Deus na celebração comporta reconhecer que é o pró­prio Cristo que Se faz presente e Se dirige a nós para ser acolhido» (Ver­bum Domini, 56).

© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

 

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