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Paróquia dos Álamos, Funchal

Jesus ressuscitado: Dia de Páscoa. Recordando a Palavra da Semana Santa

548.1548.2Após o Evangelho: homilia e Ladainha.

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Recordando homilias do Sr. Bispo na Semana Santa de 2019

 

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Catedral do Funchal

14 de Abril de 2019 (C)

Caros irmãos e, de um modo muito particular, caros jovens

  1. As celebrações do Domingo de Ramos como que concentram em si um misto de emoções, aparentemente contraditórias: por um lado, Jesus é aclamado como Messias pelos habitantes de Jerusalém e, por outro lado, caminha serenamente para a Paixão.

Assim, a liturgia deste Domingo, verdadeira "porta de entrada da Semana Santa", ensina-nos o modo de olhar para a cruz de Jesus e, deste modo, a viver o sofrimento que marca tantas vezes a nossa vida, e (sobretudo) a sermos discípulos.

Com efeito, sem retirar nada ao dramatismo da morte de Jesus: ao sofrimento físico e ao abandono que Ele padece; à derrota, ao fracasso que lhe está associado, à inconsistência dos habitantes de Jerusalém que tão depressa aclamam Jesus como o conduzem à morte; à vergonha sobre o modo como os seus discípulos mais próximos viveram todos estes dias - sem retirar nada ao dramatismo da morte de Jesus, tudo isso nos aparece envolvido por um "pano de fundo" de serenidade gloriosa.

Não são apenas os hossanas que cantámos durante a procissão com que entrámos jubilosamente nesta nossa Catedral. As próprias leituras, há pouco proclamadas, se revestem deste misto de "paixão gloriosa": "O Senhor abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo" - dizia o profeta; "Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou" - escrevia S. Paulo; "Vendo o que sucedera (a morte de Jesus na cruz), o centurião deu glória a Deus" - narrava S. Lucas ao descrever o momento da morte do Senhor.

Não nos convida a Palavra de Deus ao triunfo dos que, vitoriosos na batalha, desdenham dos derrotados. Mas também não nos propõe o sentimento masoquista da derrota ou (muito menos), a raiva que conduz à vingança - o modo como, habitualmente, no mundo são pagas as humilhações sofridas.

A Palavra de Deus convida-nos antes à atitude com que o próprio Jesus viveu todos estes momentos: a atitude serena daquele a quem foi dada a graça de escutar e de falar, certo de que, precisamente nesta aparente derrota, se manifesta o máximo do amor divino por nós, por todos. Trata-se de deixar que, também em nós, o amor de Deus (o mesmo que conduziu Jesus à cruz) se manifeste, dê forma ao nosso modo de ser e de viver.

Não a nossa vitória, mas a vitória de Deus. Não o nosso amor e a nossa generosidade, mas o amor divino. Não as nossas capacidades, mas aquelas que são próprias de Deus - as únicas a vencer e a convencer verdadeiramente o coração dos homens.

E, assim, o Evangelho ensina-nos também o conteúdo daquilo que os discípulos de Jesus têm a dizer ao mundo e também a forma com que, neste nosso século XXI, o havemos de anunciar. A mensagem de Jesus há-de dar forma ao nosso modo de viver, ao nosso "estilo de vida" de cristãos.

  1. Ao conteúdo que havemos de anunciar e ao modo como havemos de viver se referia o Papa Francisco na sua recente Exortação Apostólica "Cristo vive", publicada na sequência do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, e que vos convido a ler e a meditar.

Quanto ao conteúdo, o Santo Padre dividia-o em 3 pontos essenciais. Afirmava: "Eis a primeira verdade que quero dizer a cada um: «Deus ama-te». Mesmo que já o tenhas ouvido - não importa! -, quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca duvides disto na tua vida, aconteça o que acontecer. Em toda e qualquer circunstância, és infinitamente amado" (112).

"A segunda verdade - continuava o Santo Padre - é que, por amor, Cristo entregou-Se até ao fim para te salvar". [...] "E Cristo, que nos salvou dos nossos pecados na Cruz, com o mesmo poder da sua entrega total, continua a salvar-nos e a resgatar-nos hoje. Olha para a sua Cruz, agarra-te a Ele, deixa-te salvar (118.119).

"Mas - dizia também o Papa - há uma terceira verdade, que é inseparável da anterior: Ele vive! É preciso recordá-lo com frequência, porque corremos o risco de tomar Jesus Cristo apenas como um bom exemplo do passado, como uma recordação, como Alguém que nos salvou há dois mil anos. De nada nos aproveitaria isto: deixava-nos como antes, não nos libertaria. Aquele que nos enche com a sua graça, Aquele que nos liberta, Aquele que nos transforma, Aquele que nos cura e consola é Alguém que vive. É Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, revestido de luz infinita" (124).

Mas de que forma poderemos dar testemunho deste Deus que é amor, que nos salva em Jesus Cristo e que vive hoje connosco? Que estilo, que modo de viver havemos de assumir para mostrar como tudo isto é vida e importante para a vida de todos, e não um simples discurso retórico?

O Papa Francisco, apontava também três aspectos. Começava por recordar as palavras de Carlo Acutis, um jovem italiano falecido em 2006 e que gostava de lembrar: "todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias". Quer dizer: Deus criou-nos únicos, e nós temos a tendência de nos irmos copiando uns aos outros, pensando que, desse modo, seremos melhores quando, de facto, não é assim.

Por isso, diz também o Santo Padre (primeiro ponto): "Ousa ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa; não precisas de ter nem de parecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és, se reconheceres o muito a que estás chamado. Invoca o Espírito Santo e caminha, confiante, para a grande meta: a santidade. Assim, não serás uma fotocópia; serás plenamente tu mesmo" (107). E ainda: "Para a juventude desempenhar a finalidade que lhe cabe no curso da vida, deve ser um tempo de doação generosa, de oferta sincera, de sacrifícios que custam mas nos tornam fecundos" (108).

De seguida, o Papa Francisco convidava: "Se és jovem mas te sentes frágil, cansado ou desiludido, pede a Jesus que te renove. Com Ele, não se extingue a esperança. [...] Cheio de vida, Jesus quer ajudar-te para que valha a pena ser jovem. Assim, não privarás o mundo daquela contribuição que só tu - único e irrepetível, como és - lhe podes dar" (109).

E, finalmente: "É muito difícil lutar [...] se estivermos isolados. O isolamento enfraquece-vos e expõe-vos aos piores males do nosso tempo" (110).

Ousar ser como Deus nos pede, com Jesus e na companhia dos irmãos: este é, segundo o Papa, o modo de anunciar o amor de Deus que se manifestou na cruz de Jesus - deste Jesus que venceu a morte e vive para sempre.

É tudo isto que, afinal, descobrimos também nesta liturgia de Domingo de Ramos: a vitória serena mas firme daquele que por amor de cada um de nós viveu a cruz e, desse modo, se entregou ao Pai e aos irmãos, mostrando que o amor de Deus é vida entregue e proposta para todos.

Convidando-nos a olhar para Jesus, a viver com Ele, o Domingo de Ramos ensina-nos o modo de sermos cristãos: o que havemos de anunciar e como o havemos de fazer. Peçamos ao Senhor que nos grave hoje, no coração, essa qualidade única que queremos marque a nossa vida: ser discípulos daquele Jesus que por amor se ofereceu na cruz.

 

Quinta-feira Santa

Catedral do Funchal

Missa Crismal 2019

Queridos Padres,

Meus irmãos,

Não vos posso esconder a minha comoção ao presidir pela primeira vez a esta celebração que nos é, felizmente, tão querida. Na impossibilidade de, por motivos pastorais, concelebrarmos a Missa da Ceia do Senhor da tarde deste dia santo - havemos de a celebrar, com não menos união entre todos, mas junto do povo que nos está confiado, iniciando desse modo o Tríduo Pascal - na impossibilidade, dizia, de concelebrarmos no mesmo lugar físico a Missa da Ceia do Senhor, quis a sabedoria da Igreja convidar-nos para, nesta Eucaristia de consagração dos santos óleos, tomarmos consciência do presbitério que somos, da missão que Jesus nos confia, a cada um e a todos, sinais visíveis da Sua graça, sacramentos vivos e para sempre da Sua presença no meio da história.

Ver-vos assim, reunidos e unidos, diante do povo, em redor deste indigno servo que o Senhor colocou à frente da nossa Igreja diocesana e, sobretudo, em redor da mesa eucarística, não pode deixar de me fazer estremecer de alegria, e de fazer brotar do meu coração um hino de acção de graças - que não é menos um hino de súplica para que Ele não me abandone, e eu possa ser o pastor que a nossa diocese necessita.

Queridos Padres,

Escutávamos, na leitura evangélica, as palavras de Jesus: "cumpriu-se hoje a passagem da Escritura que acabais de ouvir". Deixai que, por alguns momentos, vos proponha uma meditação acerca do que pode representar para cada um de nós este "hoje" a que Jesus se referia.

  1. Chamado, como bom judeu que frequenta a sinagoga, a fazer a leitura dos profetas, Jesus depara-se com o célebre trecho retirado de um dos cânticos do Servo de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor me ungiu, e me enviou a proclamar a Boa Nova aos pobres" (Is 61,1). O Servo vê-se ungido e enviado. Melhor: ungido para ser enviado. E no cumprimento destas realidades consiste o seu serviço.

Ele é "ungido". Desde os tempos do Êxodo que os sacerdotes eram ungidos (cf. Ex 29,7; 30,22-33). Tratava-se de derramar sobre a sua cabeça o óleo da unção. Desse modo, um membro do povo de Israel ficava consagrado para exercer um sacerdócio em honra do Senhor (cf. Ex 30,30). Esta unção era também própria dos reis: Saúl foi ungido pelo Profeta Samuel (1Sam 10,1), e já nessa ocasião o Profeta afirmou que a unção com óleo era sinal de uma outra unção, de uma eleição realizada pelo próprio Deus: "Este é o sinal de que o Senhor te ungiu como chefe da sua herança" (1Sam 10,1). Ou seja: a unção física com o óleo era sinal de uma outra unção, realizada por Deus, que capacitava o rei para desempenhar a função de chefe de todo o Israel. Do mesmo modo, também David foi ungido: "Samuel tomou o vaso de azeite e ungiu-o na presença dos seus irmãos. O Espírito do Senhor precipitou-se sobre David, a partir desse dia e também depois" (1Sam 16,13).

Assim, quando, séculos mais tarde, Isaías vê ao longe e traça um esboço da figura do Servo de Deus e da sua missão (Is 61,1), já não sente necessidade de fazer referência ao óleo, mas tão-simplesmente à unção com o Espírito do Senhor. O Espírito toma posse do Servo, de modo a que ele possa exercer cabalmente a missão que lhe é confiada: anunciar o Evangelho aos pobres, curar os corações atribulados, proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, proclamar o ano da graça do Senhor. O Espírito confia uma missão e torna aquele que é escolhido capaz de a realizar.

  1. Ao ler o texto de Isaías perante os seus conterrâneos reunidos na Sinagoga, Jesus proclama diante de todos que o esboço da figura do Ungido que Isaías realizou, adquiria finalmente uma verdadeira realização. O que era entrevisto de longe e de forma pouco clara, adquiria agora clareza evidente na sua própria pessoa. Isaías anteviu; Jesus realiza. Ele é o Servo, o Ungido, o Messias, o Cristo. Toda a sua pessoa é manifestação do Espírito. Jesus não foi apenas ungido num determinado momento, mas Ele é, desde a eternidade, o Ungido por excelência - todo Ele, todo o seu ser, todo o seu agir, todas as suas palavras são manifestação do Espírito, e realização da missão que o Pai lhe confiou.

Ousadia grande - única! - a de Jesus quando aplica a si mesmo a passagem do Profeta. Que a profecia clamasse por cumprimento, era esperado. Mas o tempo da sua realização era sempre reenviado para um futuro distante. Que, num povoado longínquo da Galileia, um simples carpinteiro, conhecido de todos, ousasse afirmar que era de si que o Profeta tinha falado, e que naquele preciso instante a palavra do Profeta encontrava a sua realização, não poderia deixar de, no mínimo, desencadear nos presentes reacções de ira e mesmo de condenação à morte (cf. Lc 4,28-30).

E, no entanto, tempos depois, a ressurreição de Jesus, vencedor da morte, Senhor da Vida, haveria de O mostrar não apenas como Aquele em quem se cumpriu aquela determinada passagem do Profeta, mas como Aquele em quem se cumpriam todas as Escrituras - haveria de o mostrar como o centro da história, o hoje eterno de Deus, no seio do tempo.

Jesus é o hoje de Deus: Aquele para onde caminham todos os tempos, culturas e civilizações; Aquele de onde parte o sentido último e definitivo da própria vida humana - de todas as vidas humanas, da existência de cada um de nós.

É por causa deste hoje - que apenas Deus pode pronunciar com toda a verdade no seio da história - que aquela mesma palavra de Jesus, longe de ficar prisioneira de um passado, continua a ser proclamada no nosso tempo com todo o seu vigor e actualidade: "cumpriu-se hoje a passagem da Escritura que acabais de ouvir". Hoje, Jesus, o Ungido, o Messias, o Cristo do Pai continua a proclamar o Evangelho, a realizar a salvação no seio da história - aqui, bem presente no meio de nós que celebramos a Eucaristia nesta Sé do Funchal. E este hoje significa igualmente a realização da sua missão de anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos prisioneiros, a vista aos cegos, a liberdade aos oprimidos.

  1. A este hoje que atravessa a história, que lhe dá qualidade divina e permite a salvação de todos e cada um dos seres humanos, de todos os tempos e culturas, a este hoje divino que apenas o Deus feito Homem pode pronunciar plenamente, o Senhor associa homens frágeis e pecadores, dando-lhes a participar da sua unção, do seu sacerdócio, enviando-os a celebrar o memorial da sua paixão, capacitando-os para dizerem com toda a verdade as palavras da Última Ceia, enviando-os a espalhar o seu perdão. Não por sua causa ou para seu deleite, mas por causa de uma humanidade - os homens e mulheres do nosso tempo - a quem Ele não desiste de oferecer a salvação; a quem Ele não desiste de proclamar o ano da graça do Senhor.

Nunca julguemos, queridos irmãos sacerdotes, que são nossas as capacidades ou a missão de que somos investidos. Por nós, por muito sábios que porventura sejamos; por muito bons e clarividentes que nos julguemos ou que nos pensem os nossos semelhantes, nunca deixaremos de ser pecadores e frágeis, incapazes de pronunciar com verdade o "hoje" de Deus.

Repito: apenas Jesus o pode fazer. Mas Jesus quer proclamar o hoje de Deus, connosco e por meio de nós. E essa vontade divina, esse olhar que repousou sobre nós e nos escolheu por motivos que apenas Ele conhece, só nos pode tornar humildes e conscientes das nossas fragilidades, para que em nós, no nosso ministério, no nosso pensar, agir e falar, no nosso ser apareça de um modo mais evidente e claro, a pessoa de Jesus.

Hoje como em todos os tempos, Ele vem ao encontro do mundo, ao encontro de todos os seres humanos, quaisquer que eles sejam, mas particularmente dos pobres, dos que têm o coração atribulado, dos cativos e prisioneiros, enredados nas malhas de tantos vícios e pecados. A esses urge que chegue a notícia do "hoje" da graça do Senhor, que chegue o Evangelho.

Nos nossos dias, um Padre é solicitado por várias tarefas, muitas em si boas e que integram a sua missão mas que não raras vezes o afastam do centro da sua existência. E é tentado por tantos outros pensamentos que o podem desviar daquilo que é, e das tarefas que o Senhor lhe confiou: são tentações do poder (político ou religioso), da importância, do estatuto social, ou tentações de se deixar diluir por entre a multidão, de ser como os demais e, quando muito, exercer o seu serviço em horários determinados, qual funcionário de uma instituição religiosa.

Queridos irmãos sacerdotes,

Deixemos que em nós, sempre, em cada momento da nossa existência, resplandeça a ousadia do "hoje divino" - aquele hoje pronunciado pelo Senhor na Sinagoga de Nazaré, que é presente em cada momento da história, e nos envolve como seus ministros e como servidores dos nossos irmãos. Renovemos pois aqui, todos numa só voz, com a mesma disponibilidade e entusiasmo do nosso coração, como naquele dia em que o Espírito do Senhor nos ungiu, as promessas da nossa ordenação.

 

Quinta feira santa - Missa da Ceia do Senhor

Sé do Funchal

19 de Abril de 2019

"Fazei isto em memória de mim"

"Fazei-o em memória de Mim". Escutadas hoje, estas palavras de Jesus ressoam, não raras vezes, como um simples: "quando estiverdes juntos e comerdes e beberdes a ceia, lembrai-vos de mim". Como se fosse uma simples repetição para recordar ou para nunca esquecer.

A Eucaristia não é uma mera lembrança distante ou representação da Última Ceia. Se fosse assim, deveríamos hoje estar sentados à mesa pascal judaica, a comer ervas amargas, juntamente com um cordeiro, como terá sucedido naquela última refeição de Jesus.

Contudo, desde os primeiros dias, logo após os acontecimentos pascais, os cristãos celebraram a Eucaristia sem esperar que passasse um ano e chegasse de novo o momento da Ceia, e sem comer o cordeiro imolado no Templo e as ervas amargas. O ponto de partida da celebração da Eucaristia não foi uma festa anual mas a ressurreição do Senhor, esse acontecimento que, no meio do tempo, no seio da história humana, projecta o fulgor da vida divina e nos oferece um novo sentido para a existência.

Aquilo que os cristãos celebram - hoje como desde o primeiro dia - é o Mistério Pascal de Jesus e, com ele, o mundo novo que nos é oferecido, a cada um de nós, pela morte e ressurreição do Senhor. É daqui, e à luz deste acontecimento, que podemos descobrir o significado pleno da celebração cristã e também o significado daquela Ceia derradeira que Jesus quis comer com os seus.

Da Última Ceia, o que foi retido e celebrado pelos cristãos foram aquelas palavras e aqueles gestos que, no meio dos ritos e celebrações judaicas, trouxeram consigo a novidade, proclamada depois pela morte e ressurreição do Senhor: "Tomai e comei: isto é o meu Corpo"; "Tomai e bebei: este é o cálice do meu sangue"; "Fazei isto em memória de mim".

Ainda que vindos da parte de Jesus, tais palavras e gestos terão sido difíceis de escutar pelos discípulos. Eles traziam consigo a identificação de Jesus com um pedaço de pão e com a taça de vinho. Mais ainda: o convite a comer o Seu Corpo e a beber o Seu Sangue e, ao mesmo tempo, a fazê-lo partilhando-os entre os presentes, num real gesto comunitário.

Jesus identifica-se com o pão e com a taça de vinho. Mas como pode tal acontecer? Quem é Aquele que se identifica com o pão e o vinho? Certamente: o Jesus que pronuncia estas palavras e realiza estes gestos é Aquele que os Doze tinham acompanhado ao longo dos anos nas caminhadas da Galileia e da Judeia, em particular nas suas refeições com os pecadores. Mas esse Jesus seria apenas uma memória, uma recordação, uma narração distante, não uma identificação, uma realidade. Só o Senhor morto e ressuscitado se poderia identificar com o pão partido e o cálice de vinho partilhado. Apenas Aquele que na cruz se ofereceu em sacrifício, experimentou a morte e ressurgiu no primeiro dia do mundo novo; apenas Ele poderia dizer: isto é o meu Corpo, este é o cálice do meu sangue - ou seja: sou eu mesmo, tomai e comei! Apenas Ele poderia realizar esse gesto para sempre!

Ao pronunciar estas palavras, Jesus cria uma nova presença, uma presença real, que se oferece a si mesma, que não depende das memórias dos amigos humanos, mas que depende dele próprio e do seu novo modo de ser ressuscitado: a presença sacramental. Apenas Deus o poderia fazer: apenas o Deus que surge vitorioso da morte e do sepulcro, e que, com a sua vida, atravessa o tempo e a história, apenas Ele o poderia fazer!

Essa era, aliás, o sentido do "memorial" para o povo de Israel. "Em cada geração - diz o texto da celebração pascal judaica -, cada um deve considerar-se como tendo pessoalmente saído do Egipto, porque a Torah diz: 'contarás ao teu filho naquele dia dizendo: isto é o que o Senhor fez por mim quando saí da terra do Egipto (Ex 13,8). Não apenas os nossos pais foram libertados pelo Santo, bendito seja Ele, mas também nós, como diz a Torah: e fez-nos sair para nos conduzir à terra prometida aos nossos pais e no-la oferecer" (Haggada de Pesah).

Porque eram acção de Deus na história, os acontecimentos da Páscoa revestem-se de uma tal qualidade que englobam todos aqueles que os celebram, ainda que distantes no tempo - tornam aqueles que os celebram presentes à saída do Egipto e à entrada na Terra Prometida.

Antes de se entregar no sacrifício da cruz; antes de experimentar o silêncio do sepulcro; antes de ressuscitar glorioso, o Senhor permitiu que os seus vivessem antecipadamente esses acontecimentos centrais e que, como memorial, eles permanecessem como realidade constantemente presente e modificadora da história e da vida.

Como sucedeu a todos os cristãos que nos antecederam, a nós, os seus discípulos do século XXI, o Senhor permite vivermos esse momento. Também nós estamos hoje, como comunidade de discípulos, sentados à mesa eucarística. Perante o mistério que celebramos, quer dizer: perante esta presença, este "hoje divino", os acontecimentos do Êxodo tornam-se figura, anúncio; perante esta presença, percebemos como a morte e sepultura do Senhor se revestem da qualidade de acontecimentos de salvação; perante esta presença, percebemos a Eucaristia que celebramos. Percebemos a graça de nos encontrarmos reunidos à volta do Senhor que, uma vez mais, nos diz: "Tomai e comei isto é o meu corpo; tomai e bebei, este é o cálice do meu sangue".

Sentados à mesa eucarística com Jesus, deixemos que Ele nos conduza, uma vez mais, pela Sua morte, sepultura e ressurreição. Comunguemos, irmãos. Quer dizer: comamos o seu Corpo, bebamos o Seu Sangue, unamo-nos a Ele; deixemos que Ele nos faça seus, e que a Sua Cruz seja a nossa. Porque aquele que come o Seu Corpo e bebe o Seu Sangue passa, não já do Egipto à Terra Prometida, mas da morte à vida. Participemos do memorial da Sua Paixão. Deixemos que hoje ela se faça presente na nossa vida. Mostremos a todos o caminho que Deus nos oferece para participar da Sua vida eterna.

SEXTA-FEIRA SANTA

Catedral do Funchal

19 de abril de 2019

Irmãos

  1. Hoje, em dia de Sexta-feira Santa, a cruz de Jesus é colocada no centro da celebração, para receber a adoração dos fiéis - atitude nos outros dias reservada exclusivamente à Eucaristia.

Mas sabemos como, mesmo fora deste dia Santo, a cruz é tão querida a nós cristãos. Ela foi, logo desde o início, o sinal que nos definiu. Começou por ser um escândalo: o escândalo de quem ousa anunciar um Salvador morto, condenado à morte de cruz, o modo mais horrível e mais temido de condenação. E, no entanto, os primeiros cristãos não hesitaram: eram discípulos de um crucificado que lhes tinha dito: "Se alguém desejar seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,24).

Não se trata, absolutamente, de qualquer tendência para o pessimismo ou o sofrimento. Trata-se antes de perceber como o amor de Deus por nós - pela humanidade no seu todo; pelos homens e mulheres que hoje vivem; por cada um de nós, por ti que aqui te encontras nesta Catedral - trata-se de perceber como o amor de Deus longe de ser uma ideia ou conceito geral é antes algo de concreto, tão concreto e real como a vida e a morte. Tão concreto e real como a cruz e a morte de Jesus.

Ali, quando Deus morre - quero dizer: quando Deus experimenta em primeira pessoa o que é morrer, com todo o sofrimento, abandono e solidão que isso traz consigo; quando Deus experimenta a morte dos malditos - ali percebemos como Ele assume e vive o sofrimento de todo o universo, o sofrimento da humanidade de todos os tempos. Percebemos como Ele assume e vive o pecado e a morte de todos os seres humanos.

É por isso que alguns artistas - de S. João da Cruz a Salvador Dalí - quando se interrogam sobre o modo como Deus olha para o nosso mundo, representam uma cruz vista a partir do Céu. É através da Cruz que Deus olha para o nosso mundo. É através da Cruz que somos vistos, amados e iluminados por Deus. A Cruz de Jesus Cristo é a forma como Deus te olha e, assim, é também o modo como podes olhar e representar-te o próprio Deus.

A cruz de Jesus Cristo é o lugar do amor. Longe de ser o lugar da morte, é antes o lugar onde resplandece o amor divino, com toda a sua grandeza, com todo o seu esplendor, com tudo o que tem de infinito e incompreensível. Deixando-te confrontar com a cruz de Jesus, deixas-te confrontar com a medida máxima do amor. Então, quando percebes o quanto Deus te ama, tudo se ilumina na tua vida, todas as sombras e recantos da tua existência, mesmo aqueles que gostarias ficassem desconhecidos do próprio Deus.

Não nos espante, portanto, que a Cruz de Jesus Cristo tenha ultrapassado as fronteiras da fé e se tenha constituído como expressão de uma inteira civilização - da nossa civilização cristã -, do que ela é, das suas conquistas e dos seus ideais.

  1. Mas, ao mesmo tempo que adquire toda esta grandeza, nunca a cruz de Jesus Cristo deixou de ser algo de concreto, que toca e ilumina todos os momentos, pontuais ou englobantes, da nossa existência.

Nesta semana tivemos notícia de dois acontecimentos, tristemente concretos e reais, que deixaram em todos uma interrogação. Por um lado, o incêndio da catedral de Notre Dame - a "catedral da Europa", símbolo de uma Europa cristã que da terra eleva o seu pensamento, a sua acção, o seu espírito a Deus e procura e afirma que o Céu não se encontra desligado da terra, e que esta não consegue ser um espaço digno do homem sem a atitude orante de quem escuta, pede e responde a Deus. Um incêndio destruidor quase deitou por terra a Catedral de Paris. Permaneceu, significativamente, no seu interior, a cruz que, apesar do escuro das paredes queimadas, e contrastando com elas, continuava a brilhar, como que a proclamar, teimosamente, o amor de Deus por todos.

E, dias depois, na passada quarta-feira, um acidente ceifou a vida a 29 nossos irmãos e deixou tantos outros com ferimentos graves ou com marcas no seu coração - marcas de um momento onde a vida se mostrou frágil e fora do nosso domínio. Um sofrimento, a que não somos capazes de aportar qualquer explicação, como é sempre o sofrimento inocente. E, na parede da casa destruída pelo autocarro, lá estava a cruz, como que a dizer-nos como o Senhor padece sempre de novo, hoje, nos nossos dias.

Como quer que seja, nós, cristãos, não podemos deixar de ver nestes acontecimentos um parentesco com o sofrimento mais inocente que é o de Jesus na Cruz. E olhando para esse momento de trevas, não podemos deixar de sentir, de perceber como o próprio Deus sofreu e continua a sofrer, porque a cruz de Jesus resume, sintetiza faz seu todo o sofrimento do mundo. E não podemos igualmente deixar de nos dar conta que apenas na cruz nos é oferecida uma luz que nos afirma a capacidade redentora, salvadora, destes momentos-limite de humanidade.

Na cruz está o sofrimento da humanidade: todo o sofrimento humano, com todo o seu peso (como terá sido pesado o sofrimento do Senhor!). Na cruz está o teu sofrimento e o teu pecado; está a tua morte. Mas está também o amor de Deus que o suporta! Suporta-o porque o vive contigo e o sofre contigo (não recusa nunca tomar contigo a cruz!). E suporta-o porque, contigo, te ajuda a vivê-lo, tornando mais leve o seu peso.

Na cruz, encontras, igualmente e sempre, o amor de Deus. Esse amor que tudo ilumina; que permite ver mais longe; que convida a ir além da razão e do sentimento para procurares as razões do amor, as razões de Deus, como o fizeram tantos e, de um modo particular, os santos.

Nesta tarde de Sexta-feira Santa - na tarde desta Sexta-feira Santa - deixa que este amor concreto, pessoal e eterno de Deus, ilumine a tua vida. Deixa que Ele te salve.

† Nuno Brás, Bispo do Funchal

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