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Paróquia dos Álamos, Funchal

Santa Maria Mãe de Deus

 

«Nascimento virginal e palavra de Deus

Armindo Vaz, OCD

No primeiro dia do ano civil a liturgia católica, ainda extasiada na contemplação do presépio, celebra Maria como Virgem Mãe do Filho de Deus. Essa afirmação da fé, a Igreja vai buscá-la à palavra de Lucas e Mateus (1-2). Continuamos a meditá-la. Em linha com a leitura que dela fazíamos no anterior BE, não narra a conceção e o nascimento virginais de Jesus como se estivesse a vê-los por fora. Narra o que a fé apostólica via por dentro desse acontecimento histórico: via o seu sentido teológico. Aí, a palavra da fé não perguntava sobre um facto biológico extraordinário e humanamente impossível; nem dava a ideia de que as relações matrimoniais tornariam a geração de Jesus menos pura ou indigna d’Ele, numa espécie de exaltação da castidade da mãe. O que a fé via está para além do modo como possam ter acontecido a conceção e o nascimento de Jesus ao nível físico, biológico, ginecológico. Como vimos, a narrativa em forma de midráš não se exprime ao nível de factos constatáveis empiricamente, nem a sua espessura espiritual pode ser reduzida a um assunto de genética, totalmente estranha à sua intenção. É narrativa religiosa, de pura fé, para suscitar mais fé. Não se podem colocar à narrativa perguntas de fisiologia, às quais ela não quer nem consegue dar resposta e para as quais não foi pensada. Não tem intenção de fazer biografia ou informar sobre história. Quer formar a fé sobre o ser daquele menino. Quer dizer que Deus se comprometeu, pelo seu Espírito, no nascimento d’Ele. Deter-se a perguntar «como pôde Maria conceber sendo virgem?» seria tão absurdo como colocar perguntas de ciências naturais ou de historiografia a uma poesia. Perguntas desse género condicionam e estorvam a captação da mensagem religiosa, que é a que constitui Palavra de Deus. Os leitores imediatos não faziam essas perguntas (nem o leitor sensato faz perguntas sobre como decorreu o concílio dos deuses no canto V da Odisseia, de Homero). Acolhiam a verdade Espiritual para a qual a virgindade, enquanto realidade absoluta, aponta: entravam e ficavam na contemplação de Jesus como Filho de Deus e de Maria como sacrário do Filho de Deus.

Portanto, a verdade da conceção de Jesus por ação do Espírito não pode nem quer ser demonstrada; quer ser acreditada. Só a fé capta tão sublime verdade. A afirmação do nascimento de Jesus da virgem Maria está, narrativamente, ao serviço da fé pascal, para identificar Jesus como Filho de Deus: envolve-o no mistério de Deus. Aliás, o ato de fé na conceção virginal de Jesus, expresso nas narrativas bíblicas, só se pode entender no contexto da fé na sua ressurreição pela ação do Espírito de Deus. De facto, essas narrativas pressupõem uma meditação retrospetiva sobre as origens de Jesus à luz da ressurreição, que revelou plenamente o mistério do seu ser. Como a fé dizia que foi o Espírito do Pai a fazê-l’O ressuscitar para a vida Espiritual, também disse que foi o Espírito a fazê-lo nascer para a vida física: “O anjo do Senhor respondeu [a Maria]: o Espírito Santo virá sobre ti...; por isso, aquele que há de nascer é santo e será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35). O título filho de Deus é posto na palavra do “anjo do Senhor” como a boa nova da ressurreição, significando que, no nascimento como na ressurreição, é, afinal, Deus que pode revelar quem é o seu Ungido (Lc 1,26-38; 2,9-15 e 24,4-7). O acontecimento da ressurreição de Jesus projetou luz sobre a sua vida terrena, também sobre a conceção e o nascimento.

Sendo midráš, as narrativas desses dois acontecimentos não inventam nem são literatura de ficção. Mas eles, nos pormenores, não sucederam à letra com a exatidão factual que uma visão historicista gostaria de descobrir nelas: são fusão do factual com o imaginado. Jesus, Maria, José, João, Isabel, Zacarias, os pastores... são personagens históricas: a conceção e o nascimento de Jesus aconteceram mesmo. Belém, Jerusalém são lugares conhecidos. Aquilo que é literariamente tecido com imagens é a trama pormenorizada do anúncio da conceção e do nascimento do menino, o magnificat que o celebra, a narrativa dos magos... As citações trazidas do Antigo Testamento querem iluminar teologicamente os mistérios relacionados com o nascimento de Jesus. Por meio do midráš, o seu nascimento, objetivo, evidenciava “a plenitude dos tempos” e realizava a esperança do povo ligado à revelação bíblica: aparecia como anel central da cadeia da história salvífica, entre o Antigo Testamento e o Novo. O midráš, com o ramalhete de palavras das Escrituras, sugeria que Jesus tinha “cumprido” à perfeição as profecias e promessas nelas contidas, isto é, o desígnio salvador de Deus para a humanidade. Os embelezamentos literários (anunciação do anjo, chacina dos inocentes...) fecundavam de sentido transcendente os factos históricos mencionados: eram espiritualidade a meditar a história: sugeriam o invisível, que o historiador não poderia contar. O midráš narrativo convida o leitor a ver para além de si mesmo, a transferir-se para dentro do mistério e a deixar-se orientar por ele a partir do Alto, enlevado na contemplação pela virtude da palavra» (https://espiritualidade.carmelitas.pt/boletim/wp-content/uploads/2019/12/Boletim_Espiritualidade_n065_2020Jan.pdf).

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